quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O clima e a histeria coletiva

Como não é só de receitas que vive este blog, mas também de causos por mim vivenciados deste lado do hemisfério, vamos a um assunto sobre o qual gostaria de discorrer um pouco: o clima e a histeria coletiva que a mudança de estação provoca nos indivíduos (me inclua nessa).

Antes de me mudar para a Alemanha, eu tinha um pensamento do qual eu hoje me envergonho, admito. É sobre este pensamento que quero falar e, se possível, me redimir. Não que eu me sinta devedora de satisfação, mas talvez eu consiga antigir alguém que pensa exatamente como eu pensava. E, talvez, esse alguém faça uma simples reflexão, que eu não consegui fazer até completar meu primeiro ciclo de estações aqui: final de outono, inveeeeerno, primavera e verão.

Apesar de já ter tido a oportunidade de estar algumas vezes em países onde o inverno é mais severo (com neve e tal), quando você viaja a turismo a sua experiência é muito vaga, muito distante do dia a dia de alguém que mora naquele local. Tudo é festa, tudo é passeio, você não está inserido num universo de obrigações rotineiras - trabalho, escola, faculdade, supermercado, seja lá qual for a sua rotina - portanto, você não tem, exatamente, uma obrigação de sair na rua em horários que o frio mostra a sua face mais cruel.

Geralmente, você não fica tempo suficiente no destino frio a ponto do seu organismo sentir os efeitos da pouca luminosidade dos dias curtos e cinzas, da falta de vitamina D, do sono e fadiga infinitos. Aí você me pergunta "nossa, se fosse assim, como as pessoas daí viveriam?" e eu te respondo que, para quem nasceu e cresceu aqui, tá tudo ok, o organismo deles não sofreu uma mudança drástica de clima e ambiente, todo mundo tá vivão e vivendo. Mas nós, povo alegre e carismático do clima tropical desse Brasilzão de meu Deus, nós sofremos um misto de depressão, sonolência espontânea, apatia, preguiça e fome, tudo junto e com intensidade 5 na escala da dança do créu...

Outro comentário que eu mesma faria, em tempos de outrora: "ah, mas que exagero, o inverno na Alemanha nem é tão frio, queria ver você morando na Islândia". Tá, vamos por partes: realmente, o inverno aqui, principalmente em Stuttgart, cidade onde vivo, não é tão frio assim. Neva, mas não muito. Faz frio, mas dificilmente passa dos 2 dígitos negativos. E, na Islândia, eu não viveria jamais, nem precisa ir tão longe, nem ali na Noruega eu não fincaria a bandeira da minha casa (House Corali). O que eu só vim descobrir vivendo aqui é que, o problema não é a intensidade do inverno, mas sim quanto tempo ele dura...

Apesar do calendário formal de estações ser igual para qualquer lugar do mundo, quando eu digo que o inverno dura seis meses não é porque eu sou burra - dá zero pra mim - é porque o frio chato, o vento gelado, os dias cinzas e curtos e as camadas de roupa que fazem com que você se sinta uma cebola, isso sim dura seis meses. Meados de outubro o clima já começa a cagar, com o perdão do termo. Novembro é um misto de vento gelado, chuva gelada e céu cinza, um presságio da precipitação de neve que parece que nunca vai vir, mas ela vem. Ah, a primeira neve, eu vejo beleza e poesia no primeiro dia que olhei a paisagem de fora do meu apartamento toda branquinha. Infelizmente, a mesma poesia não se repete em todo lugar, porque a primeira neve do ano é uma completa desgraça para o trânsito, o povo bate o carro até não poder mais por causa do "sabão" que a mistura de gelo e óleo forma na pista.

O que acontece, a partir daí, é uma repetição do cenário, dia após dia após dia. É bonito, admito! Mas manter a sua rotina se torna um esforço, já que, instintivamente, nossa vontade é contemplar toda essa beleza estando no conforto do nosso sofá, com uma caneca de 750ml de chocolate quente, assistindo em ritmo de maratona todas as séries do Netflix, correto? É aí que o bicho pega, porque você sai na rua e tem vontade de entrar em qualquer portinha que tenha aquecimento e café. Do tipo, anda 20 metros, entra numa portinha, toma um café e segue por mais 20 metros, outra portinha, um Latte Machiatto e segue, 20 metros, portinha, Capuccino... isso até é possível - e legal! - se você é turista, mas não vai rolar caso você tenha que passar mais tempo nesse esquema.

Daí que isso vai longe, muito longe... até março o esquema não muda, ou seja, de meados de outubro a fim de março temos 5 meses e meio de tempo cagado! É disso que eu tô falando! Da vontade de INCINERAR seu casaco de frio porque você não aguenta mais vestir aquilo todo santo dia! "Ah Mari, mas você só tem um casaco, que uó!" - não importa, você pode ter dez diferentes e maravilhosos casacos, você vai ter vontade de botar fogo em TODOS eles! Sua paciência para a função "inverno" se esgota, função esta que consiste em:

- vestir o que deve ficar por baixo, como meia calça ou meia 3/4, blusa de algodão, etc.
- vestir a camada intermediária, como calça, malha de lã ou blusa mais quentinha (neste ponto, vc já começa a suar porque, óbvio, sua casa está aquecida)
- vestir os sapatos ou botas, que ficam perto da porta pois aqui vc não entra de sapato em casa (acho ótimo, favor considerar caso você venha me visitar)
- finalmente, vestir o cachecol - porque, se fizer isso muito antes, vai derreter - e as luvas (neste ponto eu já tô próxima de arrancar tudo de tanto calor que sinto)
- por último, vestir o casaco, fechar todos os zíperes e botões e pronto, você perdeu 20 minutos do seu dia e está com as bochechas incandescentes de tanto calor! (e se eu acho a minha casa quente, o corredor do meu apartamento até o elevador é o Inferno de Dante, sério, não sei o que essa gente tem na cabeça, mas eles colocam a calefação no nível sauna, só pode!)

Quando a primavera começa a nos agraciar com seus dias mais claros e temperaturas amenas, aí você começa a notar que não são só os animais que saem de suas tocas, mas o povo mesmo começa a manifestar uma certa alegria que estava latente desde outubro. Aquelas carrancas típicas dão lugar a tímidos sorrisos, pequenas manifestações de gentileza, sonoros agradecimentos a qualquer gesto educado... as pessoas, literalmente, se arreganham. Sério, durante o inverno só falta alguém fechar a porta com força na sua cara, um "bom dia" soa como um grunhido, a má vontade impera. Mas basta começar a primavera pra todo mundo resolver ser carismático, de riso fácil, gentil e suave em seus modos. E é neste ponto da minha narrativa que eu digo para vocês qual era o meu pensamento do passado sobre o povo que mora fora quando fala da chegada da primavera, quando enaltece os dias mais quentes, quando faz drama porque o verão está acabando ou fica anunciando o inverno com aquele tom trágico de Game of Thrones, que passou seis temporadas batendo na tecla de "Winter is coming": eu achava uma verdadeira histeria coletiva. Sério, me julguem, mas eu revirava o olho quando lia algo do tipo de alguém que estava morando fora. Conhecem aquela máxima "o peixe morre pela boca"? Pois é, não só calei minha boca como hoje ocupo o lugar dessas mesmas pessoas, postando aquele Emoji das mãozinhas dando tchau pro sol, saca? Hoje eu sou o clichê do brasileiro que vive fora, chilicando por causa do clima.

E é com esse mea culpa que eu me despeço de vocês, com a certeza de que muita gente vai revirar os olhos ou vai postar o Emoji "zzzz" pra quem fala sobre isso, mas também sei que tem muita gente aqui que vai se identificar com o que eu escrevi. Pra essa galera, tamo junto - e que venha o inverno!

Até a próxima
Mari Corali

Diferentes lugares...

... o mesmo casaco...


... tenho umas 20 fotos com ele!

Winter is coming!


Mas tem a parte legal também, esportes na neve são show!
A primavera é tão esperada e festejada...

... que eles tomam uma "cervejinha" e fazem festa pra comemorar!



2 comentários:

  1. Maria, e depois de tudo isso (que todos nós sentimos sem por nem tirar nenhum detalhe), quando você voltar pro Brasil, vai sentir uma falta terriiiiiiiivellll de como tudo isso aí (o conjunto de tudo, não só o clima) era bom demais e você vai querer voltar rsrs... grande abraço corinthiano pra vocês 2!!

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  2. Mas tenho certeza absoluta disso, Gallasch! Um salve dos corinthiano pra vc tb, abraço!

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