sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Esbórnia francesa - parte 1: Alsácia

Olá amigos leitores!

Andei sumida por um tempo, mas por uma ótima causa: saí em busca de conteúdo gastronômico da mais alta qualidade para compartilhar com vocês e voltei com uma bagagem pesadíssima! Foram duas viagens para o mesmo país - no caso, a França - mas não dá pra juntar tudo no mesmo balaio não, a França merece ser apreciada aos poucos e em detalhes e cada região merece um tópico só seu.

Começarei pela viagem para a região da Alsácia, famosa pelos seus vinhos brancos e cidadezinhas que mais parecem cenários de conto de fadas. Nosso ponto de partida foi a capital da região, Estrasburgo, de onde saímos com destino a Colmar, passando pelas cidadezinhas que compõem a rota do vinho da Alsácia. A região é bastante peculiar, pois está situada entre as margens do Rio Reno (que hoje delimita a fronteira com o país vizinho, a Alemanha) e a cordilheira de Vosges. Historicamente, o território já pertenceu, de forma alternada, tanto à Alemanha quanto à França, daí se explica a forte influência alemã tanto na gastronomia quanto na arquitetura.


Casinhas em enxaimel em Colmar: arquitetura alemã na França

A região produtora de vinhos na Alsácia se estende desde a cidade de Thann, próxima à fronteira da Suíça, até Marlenheim, ao norte, próximo a Estrasburgo. São 110km de variados microclimas e solos, o que possibilita a adaptação das uvas regionais aos terrenos mais adequados. O conceito de terroir é levado tão a sério quanto na região da Borgonha, o que resulta em vinhos brancos de grande equilíbrio e fineza. As uvas mais famosas são Riesling, Gewürztraminer, Pinot Gris (amo!), Pinot Blanc, Muscat D'Alsace, Sylvaner, Pinot Blanc e Pinot Noir. Todos os vinhos são da categoria AOC (Appellation d'Origine Controllée) e ainda são subdivididos em três categorias: AOC ALSACE GRAN CRU, AOC ALSACE e AOC CRÉMANT D'ALSACE - esta última engloba os maravilhosos espumantes da região, elaborados pelo método tradicional como o champanhe (segunda fermentação na garrafa).

Para quem quiser se aprofundar no tema vinhos, sugiro um artigo do professor Aguinaldo Záckia, que não somente entende muito do assunto mas também lidera viagens guiadas aos principais roteiros de vinhos do mundo (de onde tirei as referências para escrever sobre os vinhos da Alsácia) é só clicar aqui

Nesta viagem, estivemos em Estrasburgo, Obernai, Riquewihr e Colmar. Existem outras cidadezinhas interessantes na rota do vinho, mas não tínhamos muito tempo e acabamos fechando o roteiro desta forma. De carro, é possível percorrer toda rota em apenas um dia, porém não daria para visitar vinícolas ou passar mais tempo visitando uma ou outra cidade. Algumas são pequenos vilarejos que em 1 hora você consegue ver tudo, outras merecem um pouco mais de tempo ou até uma noite, caso da lindíssima Colmar. Em Estrasburgo, um dia inteiro seria ideal para conhecer o melhor da cidade, pois é maior e tem lugares que valem muito a visita, caso do bairro conhecido como Petit France.

Costumo dizer que na França é quase impossível comer mal. Lógico que nas cidades mais turísticas sempre existem as armadilhas para turistas, mas fora de Paris é mais raro e a grande maioria dos restaurantes está mesmo preocupada em servir bem, em mostrar a tradição culinária dos pratos da região, utilizando os ingredientes dos produtores locais. Em Obernai fui conhecer um restaurante cujo chef é entusiasta de tudo o que se produz no vilarejo onde está localizado. Não é a toa que sua cozinha lhe rendeu uma estrela no Guia Michelin, o ambiente é zero afetação, o cardápio tem poucas opções mas garante absoluto frescor em todos os ingredientes. Para terem uma ideia, quando você chega, seu pão já está à sua espera na mesa, porém cru! Eles levam para o forno (à lenha, claro) e trazem de volta maravilhosamente assado, cortado na hora, na sua frente, com a manteiga (obviamente) feita por lá também, das vaquinhas que moram ao lado. É o necessário retorno às origens da cozinha, o mundo precisa mais disso. Bistro des Saveurs - Obernai

Não preciso nem falar que a mala retornou cheia de ótimos vinhos e queijos fantásticos, comprados diretamente dos produtores. É um roteiro para quem gosta de comer e beber bem, em um cenário belíssimo e muito encantador. E para celebrar a excelente gastronomia francesa que me agraciou por vários dias, trago para vocês uma receita da região, a tradicional Tarte à l'oignon, facílima de fazer e que fica um espetáculo.





Para a massa, você vai precisar de:
1 ovo inteiro + 1 gema
125g de manteiga em ponto de pomada (tire da geladeira meia hora antes de fazer a torta)
250g de farinha de trigo (ou farinha sem glúten, nesta receita usei a da Schär)



Misture todos os ingredientes até formar uma massa firme e moldável (se sentir necessidade, acrescente 1 colher de sopa de água). Para abrir a massa, eu a coloco entre duas folhas de papel anti aderente (pode ser plástico filme também) e vou abrindo com um rolo até ficar com a espessura de 1 dedo, mais ou menos. O pulo do gato é colocar a forma sobre a massa aberta para cortar o diâmetro do fundo (ou somente o fundo removível da forma) e com as rebarbas você vai fazendo a lateral, com mais ou menos 2cm de altura. Não esqueça de untar e enfarinhar a forma!




Para o recheio, você vai precisar de:
- 160g de queijos variados (eu usei ementhal e um outro chamado Bavaria Blue, que é como um Brie com fungos azuis como do Roquefort). A real é que vc pode usar tudo o que estiver sobrando aí na sua geladeira, o importante é que sejam queijos mais cremosos, que derretam bem.
- 4 ovos inteiros
- 250ml de creme de leite fresco
- 150 ml de leite
- 2 cebolas grandes cortadas em meia lua
- sal e pimenta do reino a gosto




Nesta torta, a característica é que a cebola é dourada, ou seja, você vai ter que dourá-la antes de acrescentar ao recheio. Basta derreter um colher de sopa de manteiga com uma colher de sopa de azeite, acrescentar as cebolas e deixar ela ir dourando, mexendo de vez em quando, até ficar com uma cor bonita.





A montagem é simples, é só bater os ovos com o leite e creme de leite, com a ajuda de um fouet, acrescentar os queijos picados ou ralados e verter sobre a massa. Por último, colocar as cebolas e levar ao forno pré aquecido a 180 graus por 45 minutos ou até dourar bem.




Quando estiver bem dourada, tirar do forno, esperar esfriar e desenformar. Minha sugestão é servir com uma salada de folhas - nesta aqui usei figos, queijo feta, redução de balsâmico e pinolis. Voilá!

Já sabem, né? Quem fizer, compartilha o resultado com a gente!

E preparem vossos estômagos, pois o post que vem é sobre as confeitarias de Paris, tá de lamber a tela do computador, juro!

Beijos e até a próxima!
Mari Corali





quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Que as irmãs Tatin me perdoem, mas vamos mexer num clássico...



Queridos leitores, não sei vocês, mas tenho um sério problema com comida. Sabe esses canais tipo Tastemade Brasil ou Tasty Brasil, cujos vídeos sempre pipocam na sua timeline do facebook, com receitas que te deixam com as lombrigas assanhadas? Então, não importa o horário, posso ter acabado de acordar, mas se vejo vídeo de receita já tenho vontade de correr pra cozinha preparar aquilo que me causou desejo... nem que seja a coxinha de camarão com catupiry que esfregaram na minha cara ontem de manhã.

Foi numa dessas ocasiões que vi uma receita de Tarte Tatin salgada de cebola roxa e gorgonzola e fui dar uma conferida na geladeira pra ver se eu tinha os ingredientes necessários. Quando olhei para umas pêras tristes na gaveta das frutas tive a ideia de usar a boa e velha combinação de pêras e gorgonzola, que ficaria legal com mel e nozes também. Sem muita pretensão, montei a torta e mandei pro forno. Depois de pronta, fui experimentar um pedaço e vos digo com muita segurança: foi uma das coisas mais gostosas que já fiz na vida. Juro. Pra quem gosta da combinação, sugiro fazer hoje. Agora. Vai lá comprar o que não tiver e faça o mais rápido possível.

Segue a receita e fotos do passo a passo. Por favor, quem fizer, me conte se estou errada ou se não é uma das coisas mais gostosas e fáceis da vida!

Tarte Tatin de Pêras e gorgonzola (com cebola roxa, nozes e mel)

INGREDIENTES


4 PÊRAS MADURAS, CORTADAS EM 8 PARTES (na vertical)


2 CEBOLAS ROXAS (fatiadas) 


300g de GORGONZOLA (em cubinhos) 


100g de NOZES PICADAS (eu usei nozes pecan, mas pode ser qualquer uma)


100g de MANTEIGA (em cubos)


50g de MEL


SAL, PIMENTA DO REINO E TOMILHO (a gosto)


MASSA FOLHADA LAMINADA 


MONTAGEM


1. Em uma forma de fundo removível, distribuir a manteiga de maneira uniforme


2. Distribuir a cebola


3. Temperar com o sal, a pimenta do reino e folhinhas de tomilho


4. Distribuir as nozes


5. Colocar os pedaços de gorgonzola


6. Distribuir as pêras de maneira a fazer uma camada só, sem sobrepor as fatias


7. Por último, despejar o mel nas fatias de pêra


8. Cortar um pedaço da massa folhada suficiente para cobrir o diâmetro da forma - no meu caso, tive que fazer um remendo, mas não importa pois esse será o fundo da torta que ficará virado pra baixo ;-)


9. Levar ao forno pré aquecido a 180 graus por 40 minutos, ou até ela ficar dourada como na foto.

Para desenformar, deixe esfriar até o ponto de você conseguir manipular a forma. É só colocar um prato sobre a forma, virá-la de cabeça pra baixo e tirar a forma (mesmo no caso de uma forma sem fundo removível a torta desenforma sem problemas).

O resultado é esse aí, uma torta bem gostosa e visualmente bonita. Pode servir de entrada em um jantar mais bacana, ou para acompanhar uma salada bem fresca. É uma receita versátil, de preparo simples mas que causa uma ótima impressão!





Espero que gostem e até a próxima!
Um abraço,
Mari Corali

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O clima e a histeria coletiva

Como não é só de receitas que vive este blog, mas também de causos por mim vivenciados deste lado do hemisfério, vamos a um assunto sobre o qual gostaria de discorrer um pouco: o clima e a histeria coletiva que a mudança de estação provoca nos indivíduos (me inclua nessa).

Antes de me mudar para a Alemanha, eu tinha um pensamento do qual eu hoje me envergonho, admito. É sobre este pensamento que quero falar e, se possível, me redimir. Não que eu me sinta devedora de satisfação, mas talvez eu consiga antigir alguém que pensa exatamente como eu pensava. E, talvez, esse alguém faça uma simples reflexão, que eu não consegui fazer até completar meu primeiro ciclo de estações aqui: final de outono, inveeeeerno, primavera e verão.

Apesar de já ter tido a oportunidade de estar algumas vezes em países onde o inverno é mais severo (com neve e tal), quando você viaja a turismo a sua experiência é muito vaga, muito distante do dia a dia de alguém que mora naquele local. Tudo é festa, tudo é passeio, você não está inserido num universo de obrigações rotineiras - trabalho, escola, faculdade, supermercado, seja lá qual for a sua rotina - portanto, você não tem, exatamente, uma obrigação de sair na rua em horários que o frio mostra a sua face mais cruel.

Geralmente, você não fica tempo suficiente no destino frio a ponto do seu organismo sentir os efeitos da pouca luminosidade dos dias curtos e cinzas, da falta de vitamina D, do sono e fadiga infinitos. Aí você me pergunta "nossa, se fosse assim, como as pessoas daí viveriam?" e eu te respondo que, para quem nasceu e cresceu aqui, tá tudo ok, o organismo deles não sofreu uma mudança drástica de clima e ambiente, todo mundo tá vivão e vivendo. Mas nós, povo alegre e carismático do clima tropical desse Brasilzão de meu Deus, nós sofremos um misto de depressão, sonolência espontânea, apatia, preguiça e fome, tudo junto e com intensidade 5 na escala da dança do créu...

Outro comentário que eu mesma faria, em tempos de outrora: "ah, mas que exagero, o inverno na Alemanha nem é tão frio, queria ver você morando na Islândia". Tá, vamos por partes: realmente, o inverno aqui, principalmente em Stuttgart, cidade onde vivo, não é tão frio assim. Neva, mas não muito. Faz frio, mas dificilmente passa dos 2 dígitos negativos. E, na Islândia, eu não viveria jamais, nem precisa ir tão longe, nem ali na Noruega eu não fincaria a bandeira da minha casa (House Corali). O que eu só vim descobrir vivendo aqui é que, o problema não é a intensidade do inverno, mas sim quanto tempo ele dura...

Apesar do calendário formal de estações ser igual para qualquer lugar do mundo, quando eu digo que o inverno dura seis meses não é porque eu sou burra - dá zero pra mim - é porque o frio chato, o vento gelado, os dias cinzas e curtos e as camadas de roupa que fazem com que você se sinta uma cebola, isso sim dura seis meses. Meados de outubro o clima já começa a cagar, com o perdão do termo. Novembro é um misto de vento gelado, chuva gelada e céu cinza, um presságio da precipitação de neve que parece que nunca vai vir, mas ela vem. Ah, a primeira neve, eu vejo beleza e poesia no primeiro dia que olhei a paisagem de fora do meu apartamento toda branquinha. Infelizmente, a mesma poesia não se repete em todo lugar, porque a primeira neve do ano é uma completa desgraça para o trânsito, o povo bate o carro até não poder mais por causa do "sabão" que a mistura de gelo e óleo forma na pista.

O que acontece, a partir daí, é uma repetição do cenário, dia após dia após dia. É bonito, admito! Mas manter a sua rotina se torna um esforço, já que, instintivamente, nossa vontade é contemplar toda essa beleza estando no conforto do nosso sofá, com uma caneca de 750ml de chocolate quente, assistindo em ritmo de maratona todas as séries do Netflix, correto? É aí que o bicho pega, porque você sai na rua e tem vontade de entrar em qualquer portinha que tenha aquecimento e café. Do tipo, anda 20 metros, entra numa portinha, toma um café e segue por mais 20 metros, outra portinha, um Latte Machiatto e segue, 20 metros, portinha, Capuccino... isso até é possível - e legal! - se você é turista, mas não vai rolar caso você tenha que passar mais tempo nesse esquema.

Daí que isso vai longe, muito longe... até março o esquema não muda, ou seja, de meados de outubro a fim de março temos 5 meses e meio de tempo cagado! É disso que eu tô falando! Da vontade de INCINERAR seu casaco de frio porque você não aguenta mais vestir aquilo todo santo dia! "Ah Mari, mas você só tem um casaco, que uó!" - não importa, você pode ter dez diferentes e maravilhosos casacos, você vai ter vontade de botar fogo em TODOS eles! Sua paciência para a função "inverno" se esgota, função esta que consiste em:

- vestir o que deve ficar por baixo, como meia calça ou meia 3/4, blusa de algodão, etc.
- vestir a camada intermediária, como calça, malha de lã ou blusa mais quentinha (neste ponto, vc já começa a suar porque, óbvio, sua casa está aquecida)
- vestir os sapatos ou botas, que ficam perto da porta pois aqui vc não entra de sapato em casa (acho ótimo, favor considerar caso você venha me visitar)
- finalmente, vestir o cachecol - porque, se fizer isso muito antes, vai derreter - e as luvas (neste ponto eu já tô próxima de arrancar tudo de tanto calor que sinto)
- por último, vestir o casaco, fechar todos os zíperes e botões e pronto, você perdeu 20 minutos do seu dia e está com as bochechas incandescentes de tanto calor! (e se eu acho a minha casa quente, o corredor do meu apartamento até o elevador é o Inferno de Dante, sério, não sei o que essa gente tem na cabeça, mas eles colocam a calefação no nível sauna, só pode!)

Quando a primavera começa a nos agraciar com seus dias mais claros e temperaturas amenas, aí você começa a notar que não são só os animais que saem de suas tocas, mas o povo mesmo começa a manifestar uma certa alegria que estava latente desde outubro. Aquelas carrancas típicas dão lugar a tímidos sorrisos, pequenas manifestações de gentileza, sonoros agradecimentos a qualquer gesto educado... as pessoas, literalmente, se arreganham. Sério, durante o inverno só falta alguém fechar a porta com força na sua cara, um "bom dia" soa como um grunhido, a má vontade impera. Mas basta começar a primavera pra todo mundo resolver ser carismático, de riso fácil, gentil e suave em seus modos. E é neste ponto da minha narrativa que eu digo para vocês qual era o meu pensamento do passado sobre o povo que mora fora quando fala da chegada da primavera, quando enaltece os dias mais quentes, quando faz drama porque o verão está acabando ou fica anunciando o inverno com aquele tom trágico de Game of Thrones, que passou seis temporadas batendo na tecla de "Winter is coming": eu achava uma verdadeira histeria coletiva. Sério, me julguem, mas eu revirava o olho quando lia algo do tipo de alguém que estava morando fora. Conhecem aquela máxima "o peixe morre pela boca"? Pois é, não só calei minha boca como hoje ocupo o lugar dessas mesmas pessoas, postando aquele Emoji das mãozinhas dando tchau pro sol, saca? Hoje eu sou o clichê do brasileiro que vive fora, chilicando por causa do clima.

E é com esse mea culpa que eu me despeço de vocês, com a certeza de que muita gente vai revirar os olhos ou vai postar o Emoji "zzzz" pra quem fala sobre isso, mas também sei que tem muita gente aqui que vai se identificar com o que eu escrevi. Pra essa galera, tamo junto - e que venha o inverno!

Até a próxima
Mari Corali

Diferentes lugares...

... o mesmo casaco...


... tenho umas 20 fotos com ele!

Winter is coming!


Mas tem a parte legal também, esportes na neve são show!
A primavera é tão esperada e festejada...

... que eles tomam uma "cervejinha" e fazem festa pra comemorar!



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Em time que está ganhando: Bolo de Cenoura

Não sei vocês, mas pra mim, bolo de cenoura significa sessão da tarde. Sabe aquelas tardes que a gente passava na casa dos amigos, quando todo mundo sentava na frente da TV pra ver aquele filme pela 8ª vez e a mãe do anfitrião colocava aquela bandeja de bolo de cenoura já cortado em quadradinhos no meio da galera? Então, aquele bolo quase radioativo de tão laranja, com aquela cobertura de achocolatado e manteiga era um verdadeiro clássico...

Cada família brasileira tem uma receita "infalível" de bolo de cenoura e, claro, lá em casa a gente também tinha uma. E como toda receita antiga, passada da vó pra mãe e da mãe pra gente, as medidas eram subjetivas, não padronizadas. No caso do bolo de cenoura, a mesma receita podia dar super certo ou ser um completo fiasco, resultando em um bolo "embatumado", pesado...

Foi aí que a Dani Noce, a musa mor da confeitaria virtual e autora do blog "I could kill for desert" teve a brilhante idéia de pegar uma receita dessas que era sucesso (no caso dela, a receita da sogra) e acompanhar tudo com uma balança digital para transformar a receita em um padrão que qualquer pessoa pode seguir e obter sucesso. Não é fantástico? Pesos e medidas são fundamentais na confeitaria, é claro que sua avó pode dizer que não sabemos do que estamos falando, já que ela faz tudo "de olho" e sempre dá certo, mas para nós mortais e perseguidores dos bons resultados na cozinha, nada mais maravilhoso que uma receita para seguir tim tim por tim tim.

Em se tratando do bolo de cenoura, o fator que influencia no resultado é exatamente a quantidade de cenoura. Ela percebeu que a maioria das receitas pedia "3 cenouras médias", mas quem consegue dizer o que é uma cenoura média? Qual o tamanho de uma cenoura média? Enfim, o que deixava o bolo pesado era justamente o excesso de cenouras - a grosso modo, a explicação seria: confeitaria é pura química, muita cenoura = muita água, o que interfere no crescimento do bolo através da reação química proporcionada pelo fermento. Logo, o excesso de água faz com que o fermento não consiga trabalhar com eficiência e o bolo não cresce. A saída para evitar este erro de, digamos, interpretação, é justamente pesar as tais 3 cenouras médias e criar um padrão não subjetivo para a receita! :-)

No meu caso, sugiro fazer um brigadeiro super cremoso e bem chocolatudo para a cobertura ou recheio do seu bolo de cenoura. A receita para esse brigadeiro é super simples, o pulo do gato está em utilizar a mesma quantidade de leite condensado e creme de leite, assim ele fica cremoso, porém com a consistência ideal para cobrir ou rechear seu bolo. Gosto também de adicionar um pouquinho de chocolate beeeem amargo (tipo 90% pra cima) pra quebrar o doce do leite condensado:

- 1 lata de leite condensado
- A mesma medida de creme de leite (fresco ou UHT)
- 4 colheres de sopa de cacau
- 10g de chocolate muito amargo (acima de 90%)

Tudo junto na panela, mexendo em fogo médio até atingir consistência cremosa. Pode usar quente mesmo!

A receita do bolo completa você encontra no passo a passo em vídeo abaixo ou por escrito no fim do post. Qualquer dúvida, já sabem, né? É só deixar seu comentário aqui no blog, ou no nosso canal no Youtube ou ainda nas nossas redes sociais, que estão ali na lateral direita do blog. Curtiu? Deixe seu joinha pra gente!


Beijo grande e até a próxima!

Bolo de Cenoura Infalível

- 3 ovos inteiros
- 200ml de óleo de canola
- 270g de cenoura (pra não errar, tem que pesar!)
- 360g de açúcar
- 240g de farinha de trigo
- 8g de fermento em pó






segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Duas paixões em uma coisa só: brigadeiro de caipirinha!



Em homenagem a quem tem preguiça de textão ou pra quem fica d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-o sem saber direito qual o ponto do brigadeiro, qual a ordem dos ingredientes e etc, saiu nosso primeiro vídeo-receita!

Como prometido no post de estréia do Bundesrepublik Brigadeiro, taí a receita do queridinho Brigadeiro de Caipirinha... tá tudo explicadinho aí, não tem desculpa pra não fazer e arrasar nas festinhas, hein?

Quem curtir, compartilha e dá uma força pro nosso blog!
Até a próxima!
Mari

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Abre-alas



Nada mais justo do que iniciar os trabalhos deste blog falando daquele que dá seu nome a este espaço, ícone da confeitaria brasileira e queridinho do nosso povo, o brigadeiro!
A pergunta que não quer calar: "os alemães gostam de brigadeiro"?
Pela minha experiência como confeiteira e como estrangeira vivendo na Alemanha, a resposta é um termo que ouço muito por aqui - JEIN - que é a síntese das palavras Ja e Nein que, respectivamente, significam sim e não em português. Ou seja, a resposta pra essa pergunta é sim e não, mas vou discorrer melhor sobre o assunto, porque ele é um tanto polêmico por aqui.

Tanto trabalhando profissionalmente com confeitaria como fazendo em casa para amigos, já vi de tudo em termos de reações com relação ao nosso tão querido docinho. Já vi alemão comendo brigadeiro como pipoca, gente que ficou viciada, que não vive mais sem, mas também já vi alguns torcerem o nariz pelo fato de ser muito doce. A questão do paladar é algo importante, as pessoas se adaptam àquilo que costumam comer com freqüência, ou seja, cada povo tem suas comidas típicas, feitas com os ingredientes mais facilmente encontrados nos locais onde vivem. No caso do Brasil, a base da nossa confeitaria é o leite condensado, ao lado da gema de ovo, herança tanto dos portugueses como de nossos vizinhos latinos, presentes em muitas receitas antigas, passadas de geração em geração, onde o açúcar de cana é o principal e mais abundante ingrediente à disposição.

Já na Europa em geral, o próprio açúcar utilizado em 99% das receitas tem teor de doçura muito menor que o nosso açúcar de cana, além das preparações clássicas e tradicionais levarem uma quantidade menor do ingrediente. Com isso, o povo alemão construiu seu paladar com base em preparações muito menos doces que nós brasileiros, por isso eles sempre tendem a achar nossa confeitaria excessivamente doce, mesmo as receitas que não levam leite condensado. Esse foi um motivo que me fez quebrar a cabeça para adaptar muitas das minhas receitas para o gosto geral, uma vez que trabalhei em uma confeitaria clássica alemã e precisei reaprender muita coisa. Minha sorte é que a base da minha formação como confeiteira é a escola francesa, que já tem por princípio receitas bem menos doces que as brasileiras.

Mas como estamos aqui para falar dele, o doce que faz a cabeça dos brasileiros  e de muitos alemães também, vou ensinar minha receita infalível de brigadeiro, tanto para a versão enrolada quanto para a versão cremosa, de colher. Se você está vivendo na Alemanha assim como eu, encontrar os ingredientes não é nem um pouco difícil, hoje em dia o leite condensado é vendido em qualquer supermercado (ou lojas de produtos portugueses, brasileiros, turcos, asiáticos, etc) e arrisco a dizer que aqui está mais barato que no Brasil - ouvi dizer que o preço do leite condensado por lá está estratosférico!

O lance do brigadeiro não é a receita em si, mas sim o ponto correto. Como isso é algo muito subjetivo, vou tentar explicar da maneira mais ilustrativa possível como eu vejo que o brigadeiro chegou no ponto desejado, através de parâmetros visuais. Outra dica que já vou dar, antes mesmo de começar a falar da receita, é que dá pra fazer brigadeiro perfeito no microondas - sim! Neste caso, a questão do ponto é ainda mais fácil, pois falamos de tempo e não de conceitos subjetivos ;-)

A lista de ingredientes é a mesma, independente da sua opção de fazer na panela ou no micro, ok?

Ingredientes

1 lata de leite condensado

100 ml de creme de leite (Schlagsahne)

4 colheres de sopa de cacau 100% - nada de achocolatado, cacau mesmo, daquele bem escuro

100g de chocolate da sua preferência - se quiser um brigadeiro menos doce e bem escuro, utilize um chocolate meio amargo (Zartbitter). Se prefere um mais suave, utilize chocolate ao leite.



Modo de preparo

No fogão

Misture primeiro o leite condensado com o creme de leite, utilizando um fouet (batedor de arame), até homogeneizar. Adicione o cacau (peneirando-o para evitar aqueles gruminhos) e, por fim, o chocolate em pedaços (não precisa picar, ele vai derreter).
Leve a panela ao fogo médio, mexendo sempre até começar a ferver. Nesta primeira etapa eu utilizo uma espátula de silicone. Assim que começar a cozinhar, abaixe o fogo e continue mexendo com a espátula até começar a engrossar. Assim que começar a engrossar, mude para o fouet e continue mexendo, utilizando o fouet para dar cremosidade à mistura. Para verificar o ponto, levante o fouet e veja se a mistura se prende entre o arame ou se ela ainda cai gotejando. O brigadeiro estará no ponto de enrolar quando você levantar o fouet e perceber que o brigadeiro fica entre o arame, sem gotejar de volta pra panela. Tire do fogo, continue mexendo (agora e forma mais vigorosa) para que a consistência fique cremosa e depois de alguns minutos, passe para um prato grande e raso e cubra com plástico filme grudado na superfície do brigadeiro. Deixe esfriar por, pelo menos, 4 horas. O ideal é fazer de um dia para o outro.

No microondas

Misture primeiro o leite condensado com o creme de leite, utilizando um fouet (batedor de arame), até homogeneizar. Adicione o cacau (peneirando-o para evitar aqueles gruminhos) e, por fim, o chocolate em pedaços (não precisa picar, ele vai derreter). IMPORTANTE: utilize um refratário grande e fundo, pois o brigadeiro "sobe" bastante enquanto cozinha, não queira ter que limpar a sujeira absurda que faz quando ele resolve transbordar!
O processo de cozimento no microondas segue uma sequência de tempos, com intervalos importantes para que você possa mexer bem a mistura, uma vez que não é possível fazer isso enquanto ele está cozinhando lá dentro. É bem importante mexer vigorosamente a cada intervalo, pois é isso que irá dar a cremosidade necessária ao brigadeiro. Os tempos de cozimento e descanso são os seguintes:

2 minutos em potência alta - descanso para mexer
2 minutos em potência alta - descanso para mexer

Neste momento seu brigadeiro já deve ter começado a cozinhar no centro, então mude para a potência média, conforme os tempos a seguir

2 minutos em potência média - descanso para mexer
2 minutos em potência média - descanso para mexer

Agora é que você deve prestar atenção ao ponto, pois cada microondas tem uma potência diferente e seu brigadeiro pode ficar pronto com mais uma vez apenas, ou com mais duas vezes. Preste atenção para a forma de definir o ponto, conforme descrito no modo de fazer no fogão - o ponto é o mesmo!

2 minutos em potência média - descanso para mexer (atenção se já não deu o ponto!)
2 minutos em potência média - descanso para mexer

Assim que notar que chegou no ponto, continue mexendo vigorosamente com o fouet para dar brilho e consistência cremosa ao brigadeiro. Depois de alguns minutos, passe para um prato grande e raso e cubra com plástico filme grudado na superfície do brigadeiro. Deixe esfriar por, pelo menos, 4 horas. O ideal é fazer de um dia para o outro.




Gosto muito de fazer a versão de brigadeiro de colher para presentear, utilizando esses potinhos fofos. Os alemães apreciam muito presentes feitos por você, então abuse da sua criatividade e faça a alegria do pessoal no Natal, Páscoa, etc.

Brigadeiro de Colher

Ingredientes

1 lata de leite condensado

200 ml de creme de leite (Schlagsahne)

2 colheres de sopa de cacau 100% - nada de achocolatado, cacau mesmo, daquele bem escuro

200g de chocolate da sua preferência - no caso do brigadeiro de colher, gosto muito de usar o chocolate Lindor, da Lindt - pra quem vive aqui na Alemanha, não é nenhum luxo pois o preço é super acessível, mas pra galera do Brasil posso recomendar substituir por um bom chocolate ao leite (pra ter um bom brigadeiro, não tem jeito, você vai ter que utilizar um bom chocolate).

O modo de fazer é o mesmo que o brigadeiro de enrolar, tanto no fogão quanto no microondas, o que muda é o ponto. No caso do ponto de colher, bem cremoso, costumo tirar do fogo (ou do microondas) quando ele deixar de ter consistência líquida e passa a ter cremosidade, ou seja, ele não desce mais do  fouet em um fio líquido, ele começa a formar gotas grossas e cremosas. Isso significa que ele já está suficientemente cozido e que, quando esfriar, vai ficar super cremoso!

O que eu mais amo no brigadeiro é a versatilidade que o doce oferece, permitindo infinitas variações e combinações. Uma das receitas que mais faz sucesso por aqui é o brigadeiro de Caipirinha, lógico! Os alemães adoram uma "Caipi", então adaptar a receita do nosso drink nacional ao docinho nacional é sucesso garantido... fica pro próximo post, ok? Dessa vez, com receita em vídeo.

Espero que gostem do conteúdo, fiquem totalmente à vontade para comentar, sugerir receitas/dicas/assuntos, compartilhar ou interagir. Até a próxima!

Fotos por Marcella Baldassari Fotografia https://www.facebook.com/marcellabaldassaricocconi/
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